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Vasco Ramalheira
Nos anos 80, quando Vasco Ramalheira começou a surfar, tinha ainda 14 anos, ser surfista impunha alguns rótulos e ele e os seus amigos de então, os que também se aventuravam no mar, eram vistos como uma tribo à parte. E nem sempre era bom.
Passados trinta anos, o surf passou de um desporto de lazer, quase de culto, a um desporto de competição. Será, aliás, uma das modalidades da próxima edição dos Jogos Olímpicos, em Tóquio, no Japão, em 2020. Mas não será só isso, garante o surfista e vice-presidente da Assembleia Geral da Associação de Surf de Aveiro. Ser surfista, nesta altura do “campeonato”, é ter uma importância social que é sustentada na enorme responsabilidade que é serem os guardiões permanentes das praias, “as pessoas preferem praias onde estão surfistas, confiam em nós tanto ou mais que nos nadadores salvadores, ainda que estes não deixem de fazer o seu trabalho”.
Não são números que apareçam nos relatórios de salvamentos, mas muitos são os banhistas que os surfistas retiraram da água ao longo de todos estes anos, incluindo nos meses da época balnear, quando as praias estão vigiadas. Isto tem uma importância social muito grande. Guardiões das praias. Os rótulos continuam e ainda bem. Vasco Ramalheira é licenciado em design.
Estudou em Tomar, trabalhou numa agência de publicidade em Lisboa, foi para Nova Iorque, onde estagiou em dois ateliers de design, voltou para Ílhavo, foi professor de desenho e abriu o seu próprio negócio, a GIZ Design, onde desenvolve projetos de design e comunicação. Além de surfista, é dirigente da Associação de Surf de Aveiro (ASA) e tem o curso de juiz de surf, tendo já avaliado provas a nível nacional, europeu e mundial. Ligou-se à ASA no final dos anos 80, pouco depois desta surgir.
Em 2005, juntamente com o amigo Luis Ferreira criam o Miss Sumol Cup (atual Miss Activo Cup), evento que junta as melhores surfistas nacionais e as melhores bodyboarders europeias e mundiais, durante cinco dias, na praia da Costa Nova. Acontece, este mês, a 13ª edição de uma prova que tem sido um sucesso, não só a nível da satisfação das competidoras e das federações, portuguesas e europeias, como do ponto de vista turístico, tornando o município e as suas praias cada vez mais atrativos. Vasco Ramalheira afirma que o Miss Activo Cup “permite uma maior divulgação das nossas praias, coisa que não se conseguiria com uma competição local, tão pouco nacional, - este é um evento que traz muito reconhecimento e visibilidade às praias da região”, garantindo que ao longo dos cinco dias do evento, e também nos meses seguintes, passam por ali muitos amantes dos desportos de ondas, tudo graças às ondas ilhavenses.
Um evento com várias provas para as concorrentes nas modalidades de surf e bodyboard, mas que também é aberto à população, não só enquanto público, mas enquanto participante: há experiências de surf e slackline, que embora seja diferente do surf, é utilizado para potenciar o equilíbrio e a dinâmica do corpo. “É um evento em que tudo se combina, há desporto, competição, há ligação com as atletas, que também participam nas experiências de surf oferecidas ao público e, além disso, tem uma componente social que não poderia faltar: por cada onda surfada, o Activo Bank atribui um euro ao Lar do Divino Salvador, em Ílhavo”, afirma Vasco Ramalheira. “Os tempos mudaram”, desabafa, “há doze anos ninguém acreditava no surf, mas hoje temos nomes como o Frederico Morais, o Kikas, que passou várias vezes na Costa Nova, que está no circuito mundial, tudo mudou”, conclui com orgulho. Surf, design e ainda há tempo, sobretudo vontade, para a música.
Há alguns anos, por mero acaso, através da sua ligação profissional a uma discoteca da região, pôs alguns discos da família à disposição de uma festa temática. Desde então tem passado por bares, festas e passa pela segunda vez no Festival do Bacalhau, na terceira noite do certame, para mais uma dose de soul, funk e outros apetites. Mas não lhe chamem “dj”. A música é um prazer.
Agosto 2017
