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C.M. Ílhavo - Voltar ao início
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"Um sítio do outro mundo — viagem ao interior da maior fábrica de porcelana do país"

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08 Maio 2019

Alexandra Carita e o "Vida Extra" d'O Expresso, andaram por "sítios do outro mundo" à descoberta de um recanto artístico quase bicentenário onde se faz do que melhor há em Portugal... A Vista Alegre, em Ílhavo...

 

Leia a notícia completa, aqui...

 

"Um sítio do outro mundo — viagem ao interior da maior fábrica de porcelana do país

Fica em Ílhavo e é um caso de sucesso familiar


Por Alexandra Carita, Jornalista

Fotografia, Nuno Botelho

A chegada não promete fazer aparecer 200 anos de história. Edifícios de pequena escala, restaurados, circundam uma praça onde os álamos já deitam por terra as suas folhas secas. Em frente uma igrejinha e dos lados algumas ruelas ocupadas por carros costumeiros.

Estamos no complexo industrial da Vista Alegre, em Ílhavo, e à nossa frente há uma visita completa a aguardar. Começamos pela igreja, o centro agregador de todo o convívio social ao longo do tempo. E assim, de repente, os anos parecem andar para trás com aquele barroco tardio a puxar para outros séculos. Conversa vai, conversa vem com a coordenadora do Museu, lá mergulhamos, e a pique, naquela vida que por ali passou.

O ano era o de 1824, já a povoação tinha recebido o nome de Vista Alegre — vindo da Fonte do Carrapichel, cuja inscrição de 1693 dita ainda hoje que aquela água bebida será boa para a vista alegre —, quando José Ferreira Pinto Basto ergueu no local, ao lado de Ílhavo, a maior fábrica de porcelana do país. A casa fez história, sucesso, teve um revés, voltou ao êxito e mostra hoje o seu caminho em mais do que um museu e um hotel de luxo para ficar no complexo onde já viveram centenas de trabalhadores. Entre esse passado fulguroso e a modernidade de hoje, o sítio ganha pela trama social que encerra entre a capela-mor, o bairro operário, o palácio senhorial, a escola, e o teatro, mais um museu instalado bem no coração da fábrica que el rei Dom João abençoou.

A religião agrega então a população e a alta burguesia em redor da Capela de Nossa Senhora da Penha de França. Mas depressa o progresso da fábrica leva a que os contactos sociais se estabeleçam em laços muito mais cordiais. Nasce, por exemplo, a 1 de julho de todos os anos (até hoje) a festa da Vista Alegre que comunga do lado popular e do religioso, numa profusão de jogos e torneios, missa e procissão, num momento de celebração conjunta.

Grande responsável por este ambiente raro no mundo do trabalho do século XIX e início do século XX, inventivo e liberal, o patriarca José Ferreira Pinto Basto, natural do Porto, tinha viajado o suficiente para perceber que a produção de uma fábrica seria tanto maior quanto mais satisfeitos estivessem os seus funcionários. Na região toda a gente queria ir trabalhar para a Vista Alegre, onde até um teatro, uma banda filarmónica e um clube de futebol são patrocinados pela família Pinto Basto.

Quinze filhos, dois viriam a falecer, nasceram do amor do empresário pela filha do cônsul inglês em Viena, D. Bárbara Inocência Allen, uma mulher atenta às necessidades da prole e dos negócios. Seria ela a declarar obrigatória a reunião da família no palácio da Vista Alegre para analisar o progresso da fábrica e ser uma forma de união entre todos. Mulher de armas, lutou ao lado do marido contra D. Miguel, e, ao ver-se sozinha em casa – Pinto Basto fugira a bordo de uma fragata francesa – hasteou a bandeira do país para sua proteção.

A família, entre rixas e compadrios, foi crescendo e ganhando a vida com o andar acelerado da produção de porcelana cada vez mais requintado. Já lá ia o ano em que fora criada a primeira chávena com pires. Essa foi apresentada em 1827 à Junta Real do Comércio, vinda da “primeira fornada em grande”. A chávena vive hoje no Palácio Alvor, no Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa.

O local da Vista Alegre era o ideal. Virado para a ria, tinha ligação à zona Norte, a Ovar e Stª Maria da Feira, onde ficava a exploração do caulino, material fundamental para a receita da porcelana de melhor qualidade, e com boas redes viáveis, e ainda abundância de madeira, sobretudo pinhais, para alimentar os fornos da fabricação, aquele sítio despertou a atenção de Pinto Basto logo em 1814, data em que adquire os terrenos à volta da capela que só viria a ser sua dois anos depois.

De resto, diz-se, terá sido a terra “fértil” que encontrou que o levou a mudar-se para ali, vindo de Lisboa, onde habitava o Palácio do Loreto. Mesmo assim, não perdeu o interesse pela política, pela economia, e, sobretudo, pela educação. Os filhos foram estudar para fora, Alemanha ou França, e frequentaram cursos com ligações práticas à manufatura que o pai fazia crescer e que mais tarde passou pelas suas mãos, enquanto sócios e administradores da fábrica. Já em Vista Alegre, escrever, ler e estudar música eram disciplinas obrigatórias na escola criada pelo fundador e condição sine qua non para labutar na empresa, uma das mais evoluídas de Portugal à época. José Ferreira Pinto Basto queria que todos fossem à sua “custa vestidos, mandados ensinar a ler, escrever e contar, comer e cama”.

O caminho foi sendo desbravado com destreza. A fábrica produzia e vendia. Em 1866, à data da morte de D. Bárbara, o capital social da empresa já ascendia aos 58500 reis. Em 1888 já empregava 160 homens, pagos a 800 réis diários, 24 mulheres, pagas a 160 réis diários e 40 crianças a 120 réis diários. Muita gente dirigida pelos grandes mestres que vinham de França, como M. Rousseau. E todos a habitarem à volta do complexo fabril, uma população a exceder os 500 habitantes em 1924, 100 anos depois da sua fundação.

Agora, quase 200 anos após a inauguração da empresa, Vista Alegre já é há muito marca de qualidade. Pouca gente a associa a um local e a sua história mistura-se com as histórias de todas as casas e mesas de um Portugal que se habituou a comer nos pratos e taças, terrinas e chávenas de padrões múltiplos mas clássicos. No entanto, uma visita ao complexo agora restaurado pelos novos donos, a Visabeira, relança o olhar para uma outra maneira de trabalhar, onde a mão, os olhos e a perícia da perfeição ainda mandam.

Mais. O museu, as lojas, Vista Alegre, Bordalo Pinheiro e outlet Vista Alegre, não são só passatempos para quem nada tem que fazer, prometem compras para todas as casas e são só o caminho para o paraíso hoteleiro ali inaugurado há dois anos. Um hotel de cinco estrelas esconde-se por trás do palácio dos Pinto Basto e tem tudo o que de bom há para oferecer."