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Vista Alegre

 

Uma fábrica que cria arte parece ter de a consumir e neste caso cria-se um sistema sustentável. Na Vista Alegre cultiva-se a ideia de um lugar mágico, envolto em secretismo. Esta ideia revela-se muito importante para a construção do modelo social, perdurando até hoje...

 

 

Breve roteiro histórico e arquitetónico

 

O lugar da Vista Alegre situa-se a cerca de 2km a sudoeste do centro de Ílhavo e, durante o século XVII, a aproximadamente à mesma distância a noroeste do atualmente extinto Concelho da Ermida, nas margens do “Rio Bôco”, canal da Ria de Aveiro. 

 

Sabe-se que a Capela da Nossa Senhora da Penha de França terá sido um dos primeiros edifícios, dos que ainda subsistem na Vista Alegre. Não se conhecendo a sua data exata de construção terá surgido em finais do século XVII, tendo o responsável pela sua construção sido D. Manuel de Moura Manuel, Bispo de Miranda do Douro e que teria sido também Reitor da Universidade de Coimbra. D. Manuel de Moura Manuel era irmão de Ruy de Moura Manuel, proprietário de uma quinta na Ermida. A Capela e o túmulo do Bispo encontram-se classificados como Monumento Nacional.

 

Também dessa altura é a inscrição – 1693, na Fonte do Carrapichel – “Bebe pois, bebe à vontade. Acharás que é (muitas vezes) Tão útil para a saúde Quão para a Vista Alegre” e, desse mesmo ano, o pedido a El Rei D. Pedro II pelas Câmaras da Ermida e de Ílhavo de estabelecimento de uma Feira na Vista Alegre, feira essa que ainda hoje se realiza, todos os dias 13 de cada mês.

 

 
Já durante o século XIX – 1812, José Ferreira de Pinto Basto adquire a quinta da Ermida, nessa Vila, e, quatro anos depois, em 1816, a Capela da Vista Alegre (Nossa Senhora da Penha de França) e os terrenos envolventes, em hasta pública. Em 1824, apresentou uma petição ao Rei D. João VI para “erigir para estabelecimento de todos os seus filhos, com igual interesse, uma grande fábrica de louça, porcelana, vidraria e processos chímicos na sua Quinta chamada da Vista – Alegre da Ermida”, que recebeu o alvará régio a 1 de julho desse mesmo ano, que irá receber, apenas cinco anos depois o título de Real Fábrica, um reconhecimento pela sua arte e sucesso industrial.

 

É a partir desse importante ano de 1824 que se inicia a construção do bairro operário da Vista Alegre, o primeiro do género a surgir em Portugal, que acompanhará, sempre, a evolução histórica da Fábrica da Vista Alegre, ao longo dos seus quase duzentos anos, imbuído do espírito empreendedor do seu fundador, considerado um homem esclarecido do seu tempo. O bairro nasce da necessidade de albergar uma população sem passado comum (funcionando como fator de atração e fixação de mão de obra, especializada) e o caráter inovador da sua fundação revela-se na sua estrutura, na capacidade de antecipação de necessidades e nas preocupações sociais.

 

 
Nos anos que se seguiram à instalação da fábrica foram construídas, em torno do Largo da Capela, além das instalações fabris e armazéns associados, casas para operários, um Colégio, com internato (1826), o Teatro (atual Laboratório das Artes Teatro da Vista Alegre, de 1826, reconstruído em 1851 e reabilitado por diversas vezes após esta data, tendo a última ocorrido em 2015/2016), o Palácio (residência do administrador da Fábrica), a Creche, o Refeitório (ainda em funcionamento), a Garagem, o Dormitório – para acolhimento a operários de fora, solteiros e guardas, a Messe – para albergar engenheiros e outros técnicos (entretanto demolida), a Abegoaria, a Barbearia, o campos de futebol (que não corresponde à localização do atualmente existente), a sede do Sporting Clube da Vista Alegre, o campo de ténis (onde se encontra o atual picadeiro), entre outros.

 

São características na Vista Alegre as paredes brancas em moldura amarela, o que a distingue das povoações envolventes, em que a aplicação de fachada do azulejo é frequente. Esta particularidade, que lhe confere harmonia, encontrar-se-à, muito provavelmente, para além das opções estéticas iniciais, da influência do conceito de casa portuguesa, surgida nos anos 20 do século passado e reforçado a partir do Estado Novo (que se inicia em 1933). Aliás, Raul Lino, o artista e arquiteto nacional que mais se associa a esta corrente estética, colaborou também na criação artística dos produtos da Vista Alegre.

 

A criação de espaços ajardinados e de largos é importante para a interpretação desta cidade industrial, onde se encontram pinheiros, álamos e belas sombras (phytolacca dioica) mas também fontes – a do Carrapichel (1623) e a dos Amores (1923, em comemoração do Centenário da Fábrica - 1924) e até o Arco, na bela Estrada das Oliveiras, que assinala a entrada do lugar.

 

 
Para a sobrevivência da Fábrica é necessário que a Vista Alegre forme artistas. Todo o espaço é, por isso organizado em torno da cultura. Para além da música, desenho e pintura, essenciais para a formação pessoal, é cultivada a beleza do local que pretende ser inspirador. A Fábrica estendia a sua magia ao mundo exterior. Isto reflete-se através da forte presença de vegetação que pretende criar cenários encantadores, da arquitetura e da paisagem própria do local.

 

Curiosidades :

 

  • A Festa da Nossa Senhora da Penha de França foi recentemente inscrita no Inventário Nacional do Património Imaterial (a 20 de abril de 2015) e ocorre, tradicionalmente, durante quatro dias no primeiro final de semana de de julho. Mais informações, aqui...

 

  • O bairro operário da Vista Alegre estará associado ao mesmo espírito que outros exemplos europeus (New Lanark - manufatura têxtil na Escócia, Bois-du-Lac – complexo mineiro de minas de carvão na Bélgica, Guise – fábrica de fogões de ferro fundido e Sévres – fábrica de porcelana, ambas em França) associados às utopias sociais que se seguiram, e reagiram, à Revolução Industrial. Sévres e a Vista Alegre são as únicas fábricas que se mantêm em funcionamento. Aliás, comprova-se o contacto com esta fábrica francesa já que, pouco depois da abertura da Fábrica da Vista Alegre, Augusto Ferreira Pinto Basto, filho do fundador, realizou uma visita técnica a Sévres onde estudou a composição da pasta de porcelana e obteve esclarecimentos que se revelaram fundamentais para a descoberta, em 1832, de abundantes jazigos de caulino a norte de Ílhavo.

 

  • A fabrica da Vista Alegre teve parte muito ativa nos acontecimentos politicos nacionais de 1846 e 1847 - a Patuleia, que opôs Cartistas e Setembristas, na sequência da revolução conhecida como Maria da Fonte. Após revolução de 9 de outubro, os operários da Vista Alegre abraçaram logo com entusiasmo a causa da Junta Governativa do Porto, procedendo imediatamente à organização de um corpo de voluntários - com o nome de Batalhão Nacional do Concelho d'Ílhavo mas que ficou conhecida como Batalhão da Vista Alegre. No dia 23 de outubro marcharam para o Porto, levando por comandante um dos proprietários e administrador da fabrica - Alberto Ferreira Pinto Basto, e por major o diretor João Maria Rissoto.

 

  • Em 1880 foi criado o Corpo de Bombeiros Privativo da Vista Alegre. O Inquérito Industrial de 1890 prevê a existência de três bombas de incêndio e a formação de pessoal;

 

  • Até 1894, altura em que abre a Escola Industrial de Aveiro, a Fábrica facultava o ensino gratuito de pintura e desenho;

 

  • Em inícios do século XX, e face às dificuldades de escoamento de produtos Vista Alegre por via marítima chegaram a ser adquiridos camelos, por causa da delicadeza do material, para o transporte;

 

  • Em 1921 é fundado o “Sport V. Alegre Club”. O futebol era o desporto em que a Fábrica mais investia. Tinha sido trazido de Inglaterra por bisnetos do fundador a partir do último quartel do século XIX. Em 1952 o Sporting Clube da Vista Alegre inscreve-se na Federação Portuguesa de Futebol.

 

  • Em 1940 é projetada a cabine para o Cinema, no Teatro, que funcionava aos fins de semana;

 

  • Na primeira metade do século XX a Banda da Fábrica acompanhava os bailes que tinham lugar na atual Rua Rissoto;

 

  • Na Vista Alegre existe uma Bela Sombra (phytolacca dioica L.) classificada como de interesse público;

 

  • Na sequência da requalificação de 2015/2016, do Teatro, pela Câmara Municipal de Ílhavo, este equipamento passa para a gestão municipal, pelo período de 10 anos, e, em novembro, é reformulado o projeto cultural do município, que passa a incluir quatro equipamentos - "luzes da Cultura", passando o teatro a designar-se por Laboratório das Artes Teatro da Vista Alegre e sendo, funcionalmente, subdividido em dois núcleos distintos: a nova "ala", dedicada ao pensamento, pesquisa e experimentação e o espaço tradicional da "sala do teatro" , enquanto espaço de programação cultural particularmente erudito, no conjunto dos diversos equipamentos.

 

 

Referências:

 

• D. Manuel de Moura Manuel

 

D. Manoel de Moura Manoel nasceu em Serpa. Filho segundo e não querendo seguir a carreira das armas, abraçou a que lhe restava, segundo o seu nascimento—a eclesiastica. Fez estudos superiores na Universidade de Coimbra e, em 17 de dezembro de 1660 foi nomeado Cónego Doutoral da Sé de Lamego, passando em 1666 para a Sé de Braga. Tinha já, por essa altura, sido nomeado Deputado da Inquisição de Évora, passou para Inquisidor da de Coimbra, em 1663, e a Deputado do Conselho Geral do Santo Ofício em 13 de abril de 1674. Em 1683 é eleito Reitor da Universidade (de Coimbra), lugar que ocupa até 1690. 

 

Escolhido para Bispo de Miranda em 28 de abril de 1689, foi sagrado em outubro do mesmo na Igreja Paroquial de Nossa Senhora dos Anjos (Lisboa). Em 1699, em viagem para as termas de S. Pedro do Sul, adoeceu gravemente nos Ferreiros (Viseu) onde faleceu e foi sepultado, tendo as suas cinzas sido transferidas para a Capela da Nossa Senhora de França, na Vista Alegre, que havia mandado contruir, em 1706.

 

Porque terá D, Manuel de Moura Manuel mandado edificar a Capela de Nossa Senhora da Penha de França? Sabe-se com certeza que vinha frequentes vezes passar alguns dias e, às vezes, meses, até, na quinta da Ermida, (vizinha à Vista Alegre) que pertencia ao seu irmão primogénito Ruy de Moura Manoel. Durante a sua estada terá travado relações com o proprietario da quinta da Vista Alegre, o Dr. Manoel Furtado Botelho, relações que se foram tornando cada vez mais próximas até ao ponto de D. Manuel ter mandado edificar em terrenos dependentes dessa mesma quinta a Capela. 

(fonte: J.A. Marques Gomes, "A Vista Alegre: apontamentos para a sua história", 1883)

 

 

• José Ferreira Pinto Basto

 

José Ferreira Pinto Basto nasceu no Porto, em 1774, e faleceu em Lisboa, em 1839. Foi um dos oito filhos do importante comerciante do Porto, Domingos Ferreira Pinto Basto, que, para além de grande proprietário de terras foi um comerciante de relevo no Porto. Foi contratador do Real Contrato do Tabaco e Saboarias e acionista da Companhia dos Vinhos do Alto Douro e, quando morreu, em 1820, já o nome dos Pinto Basto se tinha imposto na cena da vida económica portuguesa.

 

José Ferreira Pinto Basto (filho de Domingos Pinto Basto) casou com D. Bárbara Inocência Allen, em 1800, de quem teve quinze filhos. D. Bárbara Allen era filha de Edward William Allen, que foi cônsul inglês em Viana do Castelo, bem como um importante exportador de vinho do Porto para Inglaterra. Parte relevante da influência inglesa que se fez sentir em inúmeros atos e atividades da vida da família Pinto Basto ter-se-á, por certo, devido às origens da sua mulher. Os contactos que teria, mais tarde, com a realidade da sociedade inglesa, nomeadamente no que concerne ao movimento industrial, e, mais concretamente, às experiências de Robert Owen em New Lanark, poderão ter estado na base da natureza da fundação da Vista Alegre. 

 

É sem dúvida notável a visão do mundo de Pinto Basto, muito à frente para a época. É bem possível que tenha tido conhecimento das teorias de Owen e as tenha até discutido, pois, para além de homem esclarecido, educado e viajado, mantinha uma relação estreita com seu irmão João Ferreira Pinto Basto, que era também seu sócio e colaborador, e vivia em Londres como representante da Companhia dos Vinhos do Alto Douro.

 

Impôs-se como homem empreendedor, inteligente, ativista das causas liberais e, sobretudo, como um precursor e protagonista de grandes mudanças no cenário do desenvolvimento do país. Foi um veemente defensor da industrialização como meio de desenvolvimento económico.

 

A par das numerosas aquisições que aumentaram consideravelmente o património da família, envolveu-se em imensas atividades de carácter comercial, político e filantrópico. Foi certamente o contrato do tabaco, que herdou de seu pai, que mais contribui para o seu fortalecimento, tendo sido também o que lhe provocou maiores dissabores.

 

Em 1820, chegou o liberalismo. José Ferreira Pinto Basto e o seu primo, Custódio Pinto Basto, integraram-se, de imediato, no movimento, apoiando a causa liberal de forma entusiástica. O irmão António tomou claramente o partido dos miguelistas, pois encontrava-se ligado a muitos dos seus partidários através de relações matrimoniais de alguns dos seus filhos.

 

Entre o período de 1820 a 1828, José Ferreira Pinto Basto ocupou vários cargos de responsabilidade no governo: membro do Conselho de Famílias, membro da Comissão de Melhoramento das Cadeias e da Comissão Encarregada de Preparar a Lei de Franquia do Porto e de Lisboa. Com o tempo, as suas preocupações ter-se-iam voltado para o apoio às causas sociais, nomeadamente a educação dos mais desfavorecidos, enquanto Provedor da Casa Pia e Secretário do Conservatório Real de Lisboa, instituição da qual emergiu a atual Academia das Belas Artes.

 

Quando, em Janeiro de 1828, o infante D. Miguel chegou a Portugal para mudar o regime, o grupo económico dos Pinto Basto sofreu, sem dúvida, um grande abalo, pois a sua principal atividade económica assentava sobre o contrato do tabaco feito precisamente com o Estado, tendo sido acusado de empregar pessoas comprometidas com a causa liberal. Este foi sem dúvida o momento negro para o fundador da Vista Alegre que se sentiu injustiçado e com o seu bom-nome sujo pela falta de crédito, no momento em que a fábrica da Vista Alegre ainda não produzia porcelana. Na sequência desta perda, José Ferreira Pinto Basto dedicou-se mais aos seus negócios, que se encontravam, apesar de tudo, protegidos por alvarás emitidos pelo poder régio, protegendo e até ampliando, privilégios da Fábrica da Vista Alegre. Por se recusar a entregar a parte estipulada pelo governo, recebeu ordem de prisão, mas refugiou-se a bordo de um navio francês, enquanto a sua mulher reclamava nacionalidade inglesa hasteando a bandeira da Inglaterra.

 

Em julho de 1833, o governo do Duque de Palmela e de Silva de Carvalho nomeou José Ferreira Pinto Basto para o Tesouro Nacional. Em Abril de 1838, foi jurada uma nova Constituição, liberalista, com uma nova Câmara, sendo José Ferreira Pinto Basto um dos seus membros. Foi este o seu último cargo político, pois faleceu em setembro de 1839. Os filhos continuaram, no entanto, a ação do pai, tendo mantido a família unida em volta de D. Bárbara. (fonte: Almeida, Olga, “Utopias realizadas: Da New Lanark de Robert Owen à Vista Alegre de Pinto Basto”, 2010)

 

 

A Fábrica da Vista Alegre

 

Os primeiros períodos de laboração iniciaram-se com a produção do vidro e cerâmica pó de pedra, face ao desconhecimento da composição da pasta de porcelana, tendo esta cessado em 1880.

 

Augusto Ferreira Pinto Basto, filho do fundador, realizou uma visita técnica à fábrica francesa de Sèvres. Aí estudou a composição da pasta e obteve esclarecimentos que se revelaram fundamentais para a descoberta em 1832 de abundantes jazigos de caulino a norte de Ílhavo.

 

Em 1851, a Vista Alegre participou na Exposição Universal organizada no Crystal Palace, em Londres, e em 1867 recebeu reconhecimento internacional na Exposição Universal de Paris. Em 1852, D. Fernando II visitou a Fábrica da Vista Alegre, tendo sido produzida uma baixela completa para a casa real.

 

Em 1924, com a nomeação de João Theodoro Ferreira Pinto Basto como Administrador-Delegado, e ano do centenário da Fábrica, iniciou-se um período de ressurgimento. Para além do crescimento e renovação na área industrial, também a nível criativo se verificou uma forte revitalização. Estilos modernistas como a Art Deco ou o Funcionalismo revelaram a capacidade de adaptação da empresa às mudanças sociais e estéticas do início de século.

 

Este trajeto de sucesso irá consolidar-se nas décadas seguintes do século XX. Profundas reestruturações industriais permitiram à empresa rentabilizar a produção, tornando mais eficaz a sua capacidade de resposta face ao aumento do consumo e globalização dos mercados. Por outro lado, a manutenção de uma área de manufatura, altamente especializada, centrada no saber-fazer dos operários e nas tradições centenárias da empresa, permitiu à Fábrica ocupar um lugar de primazia entre as grandes manufaturas europeias.