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Ria de Aveiro

“Ninguém aqui vem que não fique seduzido (…). É um sítio para contemplativos e poetas: qualquer fio de água lhes chega e os encanta. É um sítio para sonhadores e para os que gostam de se aventurar sobre quatro tábuas, descobrindo motivos imprevistos. É-o para os que se apaixonam pelo mar profundo, e para os medrosos que só se arriscam num palmo de água – porque a ria é lago e mar ao mesmo tempo. Com meios muito simples, um saleiro e uma barraca tem-se uma casa para todo o verão. Pesca-se. Toma-se banho. E esquece-se a vida prática e mesquinha. Dorme-se ao largo, deitando-se a fateixa ou abica-se ao areal: um fogaréu, uma vara a caldeirada… Começam a luzir no céu e na ria ao mesmo tempo miríades de estrelas. Vida livre dalguns dias, de que fica um resíduo de beleza que nunca mais se extingue. É a ria também sítio para os que querem descobrir novas terras à proa do seu barco e para os que amam a luz acima de todas as coisas. Eu por mim adoro-a. É-me mais necessária que o pão. E é este talvez o ponto da nossa terra onde ela atinge a beleza suprema. Na ria o ar tem nervos. A luz hesita e cisma e esta atmosfera comunica distinção aos homens e às mulheres, e até às coisas, mais finas na claridade carinhosa, delicada e sensível que as rodeia. A luz aqui estremece antes de pousar…”

 

Raul Brandão em Os Pescadores, 1923

 

 
 
A Ria de Aveiro é uma lagoa costeira de baixa profundidade e extensas zonas entre marés. Estende-se por 45 km ao longo da costa ocidental de Portugal desde Ovar até Mira. A área total da Ria que está coberta durante a preia-mar varia entre 83 km2 em maré viva e 66 km2 de maré morta. A profundidade média é de cerca de um metro e a profundidade máxima, é mantida artificialmente nos canais de navegação, entre os 4 e os 7 metros. A comunicação com o oceano faz-se através do canal da Barra com 1,3 km de comprimento, 350 m de largura e 20 m de profundidade.

Pode ser dividida em três zonas principais: a zona sul inclui os canais de Ílhavo (Boco) e Mira, respetivamente com 7 e 14 km de comprimento e 200 e 300 metros de largura máxima. O Canal de S. Jacinto - Ovar na zona norte tem 25 km de comprimento. No seu extremo norte este canal é muito pouco profundo dando origem a uma rede complexa de pequenos canais e bacias. A terceira zona, com uma geografia muito complexa, termina em frente à foz do rio Antuã e é designada por Ria Murtosa.

 

Até há cerca de 10 séculos a Ria não existia, desaguando os rios diretamente no oceano. Nessa altura, iniciou-se o desenvolvimento de duas línguas de areia, uma a norte em Espinho e outra a sul próximo do Cabo Mondego. Ao longo do tempo a localização da Barra foi variando entre Torreira e Mira, com períodos em que a lagoa estava completamente isolada do oceano. Em 1808 foi construída a atual Barra, fixada por dois molhes.

 

Os rios Vouga e Antuã constituem as principais fontes de água doce. A circulação no interior da lagoa é dominada pela maré. Na costa ocidental de Portugal a onda de maré propaga-se de sul para norte. A maré penetra no interior da Ria através do canal da Barra e propaga-se a baixa velocidade ao longo dos canais. A velocidade de propagação é tão baixa que em alguns locais o estado de fase pode ser oposto àquele que se verifica no oceano. Os atrasos de fase são maiores em maré baixa podendo atingir 5 horas, nos extremos dos canais de Mira e de S. Jacinto - Ovar (Vicente, 1985). As velocidades máximas da ordem de 1 m/s ocorrem na zona da barra, nos canais mais estreitos e profundos.

 

 

 

 

EVOLUÇÃO HISTÓRICA DA RIA DE AVEIRO

 

Em tempos remotos a foz do Rio Vouga, junto a Cacia, teria sido uma baía aberta ao mar que banhava livremente Esmoriz, Ovar, Estarreja, Aveiro, Ílhavo, Vagos e Mira. No imenso estuário desaguavam igualmente os rios Águeda e Cértima, este junto à atual Pateira de Fermentelos.

 

Ílhavo, Ovar e Aveiro eram então centros salineiros e portos de mar por onde eram escoados os produtos agrícolas e o sal, destinados a outras regiões do país. A pesca não era, ao tempo, uma atividade de importância nesta zona do Atlântico.

 

Vários documentos datados do século X referem já o início da sedimentação, resultante da ação de agentes naturais atuando de fora para dentro - ventos fortes e marés, que levaria à formação da laguna e do areal de Mira e iniciou a transformação do litoral, partindo de Esmoriz para sul. No século XIII, a barra fixava-se junto à Torreira. O mar e os rios que desaguavam na baía - Antuã, Vouga, Águeda, Cértima e Boco, vão aprofundando a cota do Estuário.

 

Com o passar do tempo a deposição de areias e a consequente formação do cordão dunar litoral, levou à formação da laguna conhecida por Ria de Aveiro. A ligação da laguna com o mar sempre foi instável e, no passado, em anos em que esta comunicação com o mar se fechava e as águas ficavam salobras, surgiam períodos de pobreza para os habitantes de Aveiro que encontravam na laguna o seu sustento.

 

Por volta do Século XV o cordão dunar já formava um novo litoral, fazendo-se a entrada na laguna pelo canal agora existente entre a duna do litoral e as grandes dunas da Gafanha. Neste processo, Ovar perdeu o seu porto e as marinhas e Aveiro tornou-se o grande centro mercantil e marítimo, núcleo de uma vasta e próspera região agrícola, salineira e piscatória. Em Aveiro se construíam naus que faziam o comércio com Africa, a Índia e o Brasil bem como as caravelas que asseguravam a pesca do bacalhau na Terra Nova. O Porto de Aveiro recebia navios estrangeiros de comércio.

 

Esta época áurea terminou por volta de meados do Século XVI, por ação de um temporal que fechou uma vez mais o canal da barra e inundou os campos, impedindo a atividade agrícola.

 

No Século XVII a Barra desloca-se da Costa Nova para a Vagueira e posteriormente para a Quinta do Inglês. Em meados do Século XVIII a Barra continuava o seu caminho para Sul, junto aos areais de Mira, até que se fechou completamente. O tráfego marítimo praticamente desapareceu. Várias tentativas foram feitas para abertura da Barra, recorrendo ao conhecimento de engenheiros estrangeiros, ingleses, holandeses, franceses mas todas as tentativas se revelaram infrutíferas. O fecho da Barra provocava o alagamento da laguna impossibilitando a atividade agrícola e mesmo a submersão da parte baixa de Aveiro.

 

Devido à fome e morte resultante das enchentes da laguna, que impossibilitava a agricultura e provocava a insalubridade do clima e a estagnação das águas, foi feita uma nova tentativa de abertura da Barra por volta de 1800, junto à Ermida de Nossa Senhora das Areias. Dizem os registos da época que as areias retiradas durante o dia eram de imediato repostas durante a noite pelo mar.

 

Ílhavo e Aveiro assistiram ao fim do comércio marítimo, da agricultura e da indústria piscatória incluindo a da Terra Nova. Segundo os mesmos registos, sobretudo da diocese, num século a população de Aveiro terá perdido cerca de 11 000 habitantes. As espécies de peixe proveniente do mar desapareceram da laguna e o moliço com que se adubavam os terrenos agrícolas perdeu qualidade resultante da salinidade e quase desapareceu. As marinhas de sal, estavam submersas durante a maior parte do ano e por isso com uma produção quase nula, matando a maior fonte de riqueza da zona. O mesmo aconteceu com a construção naval.

 

Para fazer face a este problema, ainda no século XIX, após varias tentativas executadas sob o comando dos engenheiros militares Reinaldo Oudinot e Luis Gomes de Carvalho, a Barra foi fixada definitivamente e é mantida artificialmente através de um canal cuja manutenção está a cargo do Porto de Aveiro.

 

A laguna apresenta uma morfologia muito própria caracterizada sobretudo pelo seu sistema de ilhas entrecortadas por canais na zona central constituída pelo estuário do rio Vouga, pelos canais de Mira, Ílhavo e S. Jacinto/Ovar para sul e para norte a partir da zona central, paralelamente à costa e pela única comunicação (barra artificial) com o mar.

 

A exploração do sal é, na Ria, uma atividade milenar que se encontra em decréscimo de produção e de salinas ativas. A atividade tinha início por volta de março com a preparação das marinhas e a extração decorria desde o princípio da primavera até finais do verão, com o inicio das primeiras chuvas em que o sal era transportado por mercantéis para palheiros, onde era armazenado e processado.

 

Como fatores para a redução desta atividade, apontam-se como principais as obras portuárias que aumentaram as correntes no interior da laguna, a falta de adaptação a novas tecnologias e a generalização do uso do frio que fez descer o consumo de sal para cerca de 50%. Algumas das marinhas estão já ocupadas por pisciculturas. Segundo registos, já em 1858 se utilizavam as marinhas de sal para a criação de peixe, sobretudo na época do pousio que correspondia ao inverno. Atualmente existem ali viveiros de enguias, douradas, linguados e robalos entre outras espécies.

 


A apanha do moliço era outra das atividades que caracterizava a vida da laguna, cuja paisagem era pintada pelas coloridas e características embarcações típicas desta atividade, os moliceiros.

 

O moliço é formado por plantas aquáticas que se formam no leito submerso da laguna e que era utilizado como fertilizante nas terras agrícolas das margens. Aplicando este método, os agricultores transformaram terrenos arenosos em terrenos férteis e bastante produtivos.

 

Os moliceiros, embarcações cuja técnica de construção é específica, são agora atração turística da Ria com as suas cores e decorações sugestivas e únicas, efetuam o transporte de passageiros em passeios turísticos pelos canais navegáveis da laguna.

 

No presente, a atividade piscatória é ainda uma importante fonte de rendimento das populações ribeirinhas, em toda a área lagunar mas sobretudo nas proximidades da Barra. O porto de pesca conhece uma importante atividade de arrastões, traineiras e outras embarcações de pesca do alto.

 

O porto comercial tem vindo também a evidenciar um crescimento de movimentos, sobretudo de granéis sólidos e prevê-se para os próximos anos um aumento significativo, devido à construção da Plataforma Logística de Cacia, que permite a ligação ferroviária do porto à linha do norte e a Espanha.

 

A Ria de Aveiro constitui hoje, a par do estuário do Tejo e da costa do Algarve, uma das regiões mais propícias para a prática da náutica de recreio e do turismo náutico. A já referida atividade marítimo-turistica praticada a bordo dos moliceiros está em franco desenvolvimento e a pesca desportiva bem como os desportos náuticos, constituem – se hoje como as novas atividades no interior da laguna (in Estudo de Atividades Económicas e suas Dinâmicas – Relatório Final, Polis da Ria de Aveiro, setembro 2011, adaptado).

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