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Experimenta Ílhavo

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"Os prefácios são como entrar no mar para molhar os pés, algo que antecede a verdadeira aventura de navegar, e, sentindo as duas respirações do oceano, as ondas e as marés, imaginar e fantasiar o que possa ser o mar alto. Antes de qualquer coisa, caminhamos à beira-mar, olhamos para o horizonte, sentamo-nos na areia.
Conrad começa o seu livro "Juventude" da seguinte maneira: "Só poderia mesmo ter acontecido em Inglaterra, onde homens e mar se confundem, por assim dizer - o mar entrando na vida da maioria dos homens e os homens sabendo alguma coisa ou quase tudo sobre o mar, seja como lazer, como viagem ou como pão nosso de cada dia." É evidente que essa mistura entre o mar e os humanos não é exclusividade inglesa como sugeriu Conrad, mas um fenómeno muito mais vasto. Teria sido igualmente pertinente se tivesse escrito "só poderia mesmo ter acontecido em Ílhavo." De facto, o mar é tudo isso, o lazer, a viagem e o pão, e neste simples triângulo encontramos, aparentemente, os seus lados essenciais. Mas talvez estejamos a menosprezar um outro aspecto: o mecanismo invisível que faz com que quem olha para o oceano se interrogue sobre o destino, sobre a vida, sobre o amor, sobre a eternidade, sobre a morte. O mar é uma enorme pergunta sobre a existência, sobre a nossa existência, e, ao contemplá-lo, não evitamos esperar que a resposta venha numa das suas ondas, sabendo contudo que o significado será sempre espuma que se desfaz diante dos nossos olhos. Cáudio Magris descreve essa sensação admiravelmente: “E à beira do mar ”inexplicável”, como dizia Camões, é onde se encontra o alento da vida que nos instiga Às grandes perguntas sobre o destino e o sentido do bem e do mal; o mar induz-nos a confrontar a ambiguidade, convida-nos a desafia-la – no mar imortal, escreve Conrad, conquista-se o perdão das nossas almas pecadoras. No mar despimo-nos, despojamo-nos das defesas asfixiantes, abrimo-nos a tudo o que temos pela frente.” Magris acrescenta à contemplação uma sensação de purga, um retorno à inocência, como se de repente, ao aproximarmo-nos do mar, voltássemos a ser as crianças que no verão iam para as praias da Costa Nova ou da Barra construir castelos de areia, sabendo que as ondas os destruiriam a todos. Mas nós, ainda assim, erguíamo-los num acto de heroísmo, de quem não teme a morte e o fim das coisas. Como se em crianças, com toda a ingenuidade, soubéssemos com uma clareza que talvez tenhamos perdido algures durante a vida, que o valor do castelo não está na sua perpetuação, mas sim na sua construção, nesse acto épico e quixotesco de enfrentar a destruição usando como arma a mis efémera das construções humanas, as de areia. E assim,

criamos sem nunca desistir: quando vemos que o fruto do nosso trabalho ou do nosso ócio se transforma em espuma, recomeçamos. Levamos a marca desses verões até aos nossos outonos. Fazemos isso ao longo dos anos, mesmo quando nos esquecemos de que somos feitos de porcelana, de que somos seres de loiça ou de barro, de que um dia abriremos rachas e quebrar-nos-emos, porque o tempo é um mar ainda mais cruel e implacável.
Um lugar, disse Magris, “não é apenas o seu presente, mas também esse labirinto de tempos e épocas diferentes que se cruzam numa paisagem e o constituem: tal como vincos, rugas, expressões escavadas pela felicidade ou pela melancolia, não marcam somente um rosto, são, isso sim, o próprio rosto dessa pessoa, que nunca tem apenas a idade e o estado de ânimo daquele momento, mas sim o conjunto de todas as idades e de todos os estados de ânimo da sua vida. Paisagem como rosto, o Homem na paisagem como a onda no mar.” E, por isso, porque somos uma mistura de tempos e épocas, de memórias e esperanças, não deixamos nunca de carregar connosco aquela criança que no verão construía castelos de areia nas Praias da Costa Nova e da Barra.

 

Afonso Cruz

 

Ficha Técnica

Autores | Coletivo de Fotógrafos

Carlos Gomes, Filipe Correia, Joãozero, José Rocha, J. Pedro Martins, Nelson Gomes e Paulo Nogueira

Prefácio e Separadores | Afonso Cruz

2017 Coletivo de Fotógrafos e Câmara Municipal de Ílhavo

Reservados todos os direitos de acordo com a lei em vigor

Esta obra é uma publicação da Câmara Municipal de Ílhavo

Endereço web | www.cm-ilhavo.pt 

Correio eletrónico | geralcmi@cm-ilhavo.pt

Título da Obra | Experimenta Ílhavo

Etiqueta | Coleção arte

Coordenação editorial | Joãozero

Design Editorial e capa | Joãozero

Impressão e acabamento | Greca - Artes Gráficas

1ª Edição | Julho 2017

ISBN | 978-972-8863-38-8

Depósito Legal | 428361/17

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